A fotografia e a exceção.

 

 
Exposição de Alex Flemming no Masp.

A idéia de que uma nova tecnologia é, por si e em si, um avanço em relação ao que havia antes se constituir em outro hábito cultural iluminista que pode reivindicar com segurança o título de mito. A fotografia é exemplo de como o novo se torna desde o início, e por muito tempo, prisioneiro do velho. A fotografia libertou a pintura (e a gravura e o papel e a escultura) da reprodução tal qual da realidade. Mas a cultura costuma impor um pesado preço a tudo aquilo que provoca mudanças, ela que detesta as mudanças: no lugar do escravo libertado, alguém ou algo tem de ficar – e a fotografia ficou. Ficou com o encargo de documentar a realidade (o fotojornalismo, a foto-sociologia, a foto-antropologia, com excessiva freqüência confundidas com fotografias de arte) ou com a função de registrar a passagem (como nas fotos do instante decisivo de Cartier-Bresson) ou de captar o instante denso (como em algum Sebastião Salgado). Em nenhum desses casos a fotografia foi um milímetro além do que a pintura já havia logrado, por mais arrebatadoras e belas que cada uma dessas fotos possam ser. São fotos que representam um mundo em si, perfeitamente delimitado dentro da moldura que o campo da foto desenha. Como essas fotos são penduradas na parede como o eram as pinturas, quer dizer, como se fossem janelas abertas na parede cega –metáfora do que ocorre na alma do observador (e do próprio fotógrafo)– a idéia de que cada foto é um mundo em si, como o era a pintura (cada pintura), fica reforçada. E com ela, a noção de que a foto é uma, una – cada foto é uma foto inteira e qualquer série de fotos deve ser recebida foto a foto, uma a uma. Podem ser fotos lindas, fotos comoventes (se isso for necessário). Mas, são fotos como eram as pinturas. A modernidade, porém, nos treinou, acertada ou equivocadamente, para outra coisa: ir além. Como lembrava e pedia a Bienal de Veneza de 2005, sem muita originalidade e sem apresentar o que sugeria, com a modernidade tratou-se de dar sempre um passo adiante. Acertada ou equivocadamente, isso faz parte da história da cultura da arte.
Alex Flemming busca, em sua exposição, sair do campo habitual da fotografia e de uma exposição de fotografia. Cada foto não é nada, por si e em si. Ou muito pouco, quando se levam em conta as balizas predominantes na arte, quer dizer, na fotografia. Na exposição, cada foto não é um mundo em si. Cada foto leva o observador necessariamente, quase ansiosamente já que ele é esse observador acostumado a ter tudo desde logo, a procurar na foto seguinte o sentido incompleto da foto anterior. Não o encontrará. Não na foto seguinte. Talvez no conjunto das fotos, mas não na foto seguinte. Não se trata de uma história em quadrinhos, contudo, ou de um vitral gótico – não se trata, menos ainda, de cinema– porque não existe uma narrativa clara a diminuir a capacidade de imaginação e intelecção do observador. Não há uma narrativa clara nas fotos – além daquela sugerida pelo título, uma sugestão nada pequena que possa ser descartada comodamente pelo observador.

…Trecho de Teixeira Coelho, retirado de: http://masp.uol.com.br/exposicoes/2007/flemming/

Um abraço, Abraão.

~ por abraaomarcos em Março 15, 2007.

Deixe uma resposta