A fotografia e a exceção.

•Março 15, 2007 • Deixe um comentário

 

 
Exposição de Alex Flemming no Masp.

A idéia de que uma nova tecnologia é, por si e em si, um avanço em relação ao que havia antes se constituir em outro hábito cultural iluminista que pode reivindicar com segurança o título de mito. A fotografia é exemplo de como o novo se torna desde o início, e por muito tempo, prisioneiro do velho. A fotografia libertou a pintura (e a gravura e o papel e a escultura) da reprodução tal qual da realidade. Mas a cultura costuma impor um pesado preço a tudo aquilo que provoca mudanças, ela que detesta as mudanças: no lugar do escravo libertado, alguém ou algo tem de ficar – e a fotografia ficou. Ficou com o encargo de documentar a realidade (o fotojornalismo, a foto-sociologia, a foto-antropologia, com excessiva freqüência confundidas com fotografias de arte) ou com a função de registrar a passagem (como nas fotos do instante decisivo de Cartier-Bresson) ou de captar o instante denso (como em algum Sebastião Salgado). Em nenhum desses casos a fotografia foi um milímetro além do que a pintura já havia logrado, por mais arrebatadoras e belas que cada uma dessas fotos possam ser. São fotos que representam um mundo em si, perfeitamente delimitado dentro da moldura que o campo da foto desenha. Como essas fotos são penduradas na parede como o eram as pinturas, quer dizer, como se fossem janelas abertas na parede cega –metáfora do que ocorre na alma do observador (e do próprio fotógrafo)– a idéia de que cada foto é um mundo em si, como o era a pintura (cada pintura), fica reforçada. E com ela, a noção de que a foto é uma, una – cada foto é uma foto inteira e qualquer série de fotos deve ser recebida foto a foto, uma a uma. Podem ser fotos lindas, fotos comoventes (se isso for necessário). Mas, são fotos como eram as pinturas. A modernidade, porém, nos treinou, acertada ou equivocadamente, para outra coisa: ir além. Como lembrava e pedia a Bienal de Veneza de 2005, sem muita originalidade e sem apresentar o que sugeria, com a modernidade tratou-se de dar sempre um passo adiante. Acertada ou equivocadamente, isso faz parte da história da cultura da arte.
Alex Flemming busca, em sua exposição, sair do campo habitual da fotografia e de uma exposição de fotografia. Cada foto não é nada, por si e em si. Ou muito pouco, quando se levam em conta as balizas predominantes na arte, quer dizer, na fotografia. Na exposição, cada foto não é um mundo em si. Cada foto leva o observador necessariamente, quase ansiosamente já que ele é esse observador acostumado a ter tudo desde logo, a procurar na foto seguinte o sentido incompleto da foto anterior. Não o encontrará. Não na foto seguinte. Talvez no conjunto das fotos, mas não na foto seguinte. Não se trata de uma história em quadrinhos, contudo, ou de um vitral gótico – não se trata, menos ainda, de cinema– porque não existe uma narrativa clara a diminuir a capacidade de imaginação e intelecção do observador. Não há uma narrativa clara nas fotos – além daquela sugerida pelo título, uma sugestão nada pequena que possa ser descartada comodamente pelo observador.

…Trecho de Teixeira Coelho, retirado de: http://masp.uol.com.br/exposicoes/2007/flemming/

Um abraço, Abraão.

Tatuagem

•Fevereiro 27, 2007 • 1 Comentário

A história da tatuagem parece estar ligada à evolução do homem e ao desenvolvimento da consciência do “eu”. Existem muitas provas arqueológicas afirmando que tatuagens foram feitas no Egito entre 4000 e 2000 a.C. e, também, por nativos da Polinésia (de onde se originou o termo tattoo), Filipinas, Indonésia e Nova Zelândia (maori), onde se tatuavam em rituais ligados à religião.

Um fato muito cogitado é que os homens da pré-história se orgulhavam das cicatrizes propositais, pois elas eram sinônimas de coragem. As tatuagens foram usadas para marcar os momentos da vida biológica (nascimento, maturidade sexual), registrar os fatos da vida social (tornar-se guerreiro, sacerdote, casar-se,etc) para pedir proteção ao sobrenatural, utilizada em tratamento medicinal por curandeiros, como identificação de grupos sociais, marcação de prisioneiros, ornamentação e até como camuflagem.

A Igreja Católica, na Idade Média, baniu a tatuagem da Europa com o argumento de que era “coisa do demônio”, assim procedendo com a intenção de ocultar antigas culturas e costumes, introduzindo a sua doutrina de uma forma quase ditatorial. “Não fará cortes na pele, ou tatuará nenhum tipo de marca no seu corpo” – Leviticus 19:28.

O pai da palavra “tattoo” que conhecemos atualmente foi o capitão James Cook (também descobridor do surf), que escreveu em seu diário a palavra “tattow”, também conhecida como “tatau” (era o som feito durante a execução da tatuagem, na qual se utilizavam ossos finos como agulhas e uma espécie de martelinho para introduzir a tinta na pele). Com a circulação dos marinheiros ingleses, a tatuagem e a palavra Tattoo entraram em contato com diversas outras civilizações pelo mundo. Porém, em 1879, o Governo da Inglaterra adotou a tatuagem como uma forma de identificação de criminosos. A partir daí, a tatuagem ganhou uma conotação fora-da-lei no Ocidente.

Cristóvão Colombo levou para casa homens tatuados da América do Norte, mas o fato de que os Incas eram tatuados, embora sua civilização fosse mais avançada do que muitas da Europa, já era o suficiente para condená-los como “Bárbaros”. Para o Brasil, veio através da região portuária e se proliferou entre os estivadores, prostitutas do cais e marinheiros e, devido a isso, era marginalizada. Mas existem várias culturas pelo mundo inteiro que têm muito respeito pela tatuagem. Há famílias tradicionais que passam as técnicas entre as gerações e existem culturas em que a tatuagem é altamente sagrada.

A partir de 1920, a tatuagem foi ficando mais comercial, tornando-se mais popular entre americanos e europeus. Nos anos 60, a tatuagem se tornou uma manifestação gráfica do espírito contra cultural e se espalhou tanto quanto a ideologia hippie. Em 1891, surge à máquina elétrica de tatuar e o hábito se disseminou ainda mais.

Tenho impressão de que, mesmo ainda havendo muito preconceito, o ato de se tatuar está deixando de ser uma arte significativa e se transformando em “moda”, em requisito para padrão de beleza e inclusão social, acarretando esse “boom” de pessoas tatuadas. Eu ainda entro nessa moda.

Um abraço, Abraão.

 

 

Expressionismo

•Fevereiro 14, 2007 • 1 Comentário

Expressionismo

Expressionismo é um movimento de vanguarda do fim do século XIX. Nele havia o interesse da interiorização da criação artística e isso fazia com que nas obras estivessem expostas reflexões individuais e subjetivas.

Não podemos confundir Expressionismo com o Realismo pois não há o interesse de idealização da realidade, e sim o interesse de apreensão da realidade pelo sujeito. Se assemelha ao Realismo apenas no momento em que expõe certa visão anti-Romântica do mundo.

Portanto, podemos dizer que o Expressionismo refere-se a qualquer manifestação subjetiva da criação humana.

O Expressionismo surge de um desdobramento do Pós-Impressionismo e recebe influência de vários artistas deste período. Vincent Van Gogh e Edvard Munch são dois destes artistas. Ligações com manifestações do Art Noveau e do Simbolismo também são encontradas no movimento.

Considerando o desdobramento do Pós-Impressionismo, os artistas citados foram os principais precursores do Expressionismo. A dramaticidade, e a importância, além da independência da cor são marcas essenciais.

A pesquisa formal e psicológica dos efeitos dramáticos da cor na composição pictórica é a mais explicita herança dos Pós-Impressionista. A cor é vista de maneira não-naturalista, independente e como forma de expressão de sensações e sentimentos.

O Expressionismo era baseado na explosão da emoção e do sentido. Utilizava a imagem visual do que nos cerca para uma realidade interior. A deformação das imagens ocorre pelo sentimento interior interferir na realidade.

Dois grupos eram facilmente identificados com o Expressionismo. Die Brücke (A Ponte) em Dresden e Der Blaue Reiter  (O Cavaleiro Azul) em Munique. Os primeiros eram mais agressivos e politizados, Ernst Ludwig e Emil Nolde eram seus representantes. O Cavaleiro Azul, que mais tarde se desdobrou e parte de seus membros faria parte da Bauhaus e do advento da abstração, era mais voltado à espiritualidade, Vassili Kandinski, Paul Klee e Auguste Macke eram seus principais membros.

Na América Latina o movimento manifestou-se em forma de protesto político. No México os muralistas eram seus principais representantes.

Na década de 50, o Expressionismo voltou a se manifestar, agora com artistas americanos como Jackson Pollock, dentro do que ficou conhecido por Expressionismo Abstrato.

Um pouco de Expressionismo para todos nós.

Abraços,

Luiz Guelfi

Artes Indígenas

•Fevereiro 7, 2007 • 3 Comentários

 

Muitas obras indígenas têm impactado a sensibilidade e/ou a curiosidade do “homem branco” desde o século XVI, época em que os europeus aportaram nas terras habitadas pelos ameríndios. Nesse período, objetos confeccionados por esses povos eram colecionados por reis e nobres como espécimes “raros” de culturas “exóticas” e “longínquas”.

 

Até hoje, uma certa concepção museológica dos artefatos indígenas continua a vigorar no senso comum. Para muitos, essas obras constituem “artesanato”, considerado uma arte menor, cujo artesão apenas repete o mesmo padrão tradicional sem criar nada novo. Tal perspectiva desconsidera que a produção não paira acima do tempo e da dinâmica cultural. Ademais, a plasticidade das obras resulta da confluência de concepções e inquietações coletivas e individuais.

É uma arte que expressa força e conexão com o mundo mítico e espiritual . A beleza está presente como atributo divino. Não importa se a pintura trabalhosa e detalhada feita no fundo da panela vai ser queimada assim que ela for ao fogo. A pintura não precisa permanecer para justificar sua beleza. A produção de elementos decorativos não é indiscriminada, podendo haver restrições de acordo com categorias de sexo, idade e posição social. Exige ainda conhecimentos específicos acerca dos materiais empregados, das ocasiões adequadas para a produção etc.

 

As formas de manipular pigmentos, plumas, fibras vegetais, argila, madeira, pedra e outros materiais conferem singularidade à produção ameríndia, diferenciando-a da arte ocidental, assim como da produção africana ou asiática. Entretanto, não se trata de uma “arte indígena”, e sim de “artes indígenas”, já que cada povo possui particularidades na sua maneira de se expressar e de conferir sentido às suas produções.

 

Os suportes de tais expressões transcendem as peças exibidas nos museus e feiras (cuias, cestos, cabaças, redes, remos, flechas, bancos, máscaras, esculturas, mantos, cocares….), uma vez que o corpo humano é pintado, escarificado e perfurado; assim como o são construções rochosas, árvores e outras formações naturais; sem contar a presença crucial da dança e da música. A pintura enfeita, protege o corpo do sol e insetos, revela de quem se trata, como está se sentindo e o que pretende. As cores e os desenhos “falam”, dão recados. Boa tinta, boa pintura, bom desenho garantem boa sorte na caça, na guerra, na pesca, na viagem. Nos dias comuns a pintura pode ser bastante simples, porém nas festas, nos combates, mostra-se requintada.

 

Em todos esses casos, a ordem estética está vinculada a outros domínios do pensamento, constituindo meios de comunicação – entre homens, entre povos e entre mundos – e modos de conceber, compreender e refletir a ordem social e cosmológica. Muitos conceitos e mensagens podem ser decodificados por quem está dentro da tradição. Toda a cultura material dos povos nativos está carregada de princípios e objetivos, de valores estéticos e sociais. O talento dos artistas está a serviço da manutenção da tradição do povo, da continuidade de sua identidade. Nas relações entre os povos, os artefatos também são objeto de troca, inclusive com o “homem branco”. Ultimamente, o comércio com a sociedade envolvente têm apontado uma alternativa de geração de renda por meio da valorização e divulgação de sua produção cultural.

 

Para mim, a maior contribuição que o povo indígena pode deixar ao “homem branco” é a prática de ser uno com a natureza interna de si. A Tradição do Sol, da Lua e da Grande Mãe ensinam que tudo se desdobra de uma fonte única, formando uma trama sagrada de relações e inter-relações, de modo que tudo se conecta a tudo. Homens, plantas, montanhas e rios são um corpo, com ações interdependentes. Esse conceito só pode ser compreendido através da natureza interna de cada um. Acredito que precisamos ter uma postura de reverência para podermos assimilar a nossa diversidade cultural, tão obliterada.

Um abraço, Abraão.

A arte do subterrâneo

•Fevereiro 2, 2007 • 3 Comentários

 A arte do subterrâneo

Todo fim de semana Zezão calça as galochas acopladas à calça de homem-rã, pega uma lamparina, uma lata de spray azul-marinho, tinta látex azul-clara, a máquina digital e uma escada e desaparece nos subterrâneos de São Paulo. O objetivo é agregar cor ao tom pastel das paredes já texturizadas – pelo lixo e ação da água – da rede de esgoto da cidade. São quase 22 mil quilômetros de uma genuína galeria underground.

A única coisa viva lá embaixo – com exceção dos bichos escrotos – é a arte de Zezão, expressa no flop. A estética é fruto da fragmentação do throw up (letras gordinhas feitas em 3D e duas cores). O artista começou abstraindo as letras de Vicio, alcunha mais usada por ele. Fazia o V maior, esticava o C, invertia a ordem, e assim chegou ao flop, sempre feito com o azul-claro e o azul-escuro. A criação começou a se multiplicar em 2000. Com o tempo, dezenas de flops podiam ser não-vistos no subsolo paulistano.

Por que se enfiar no esgoto para fazer grafite? Gastar tinta num lugar que ninguém vê? Comecei essa história por causa de uma depressão, conta Zezão. O esgoto se transformou na pílula mágica que o curou da fossa. Ele não se importava se iriam ver ou não. Pintava para desabafar. Internava-se nas profundezas e passava horas criando.

Atualmente, sua idéia é revelar cada vez mais o lugar pouco acessível. Aos 33 anos, com dez dedicados à arte de rua, Zezão tem trazido o mundo subterrâneo para o mundo real por intermédio das fotos e depoimentos que publica no mundo virtual, em seu fotolog (www.fotolog.net/viciopifdst). Ele quer investir na fotografia e cogita organizar uma exposição em várias galerias – do esgoto, é claro.

Abraços.

Abraão Corazza